Por: Rogério Leandro
Quando iniciamos no teatro e chegamos a um palco pela primeira vez, além dos mais diversos aspectos a serem trabalhados, uma compreensão fundamental salta aos olhos, tamanha a importância: O reconhecimento da geografia teatral.
Talvez um mais desavisado vestibulando possa estar se perguntando:
- Até aqui esses conceitos me perseguirão?!
Pois é amigo, até aqui...
Na verdade o conceito primitivo de onde você se encontra e em relação ao entorno para onde segue ou não – temo em lhe dizer! – o acompanhará seja que atividade desempenhar e o teatro enquanto função, não será diferente, aliás, o informo que essa percepção e construção de conhecimentos na verdade, é fundamental para um bom desempenho da atividade.
Um ator/atriz que não tiver esse senso de localização ficará batido em cena. Serei mais claro.
Vamos tomar por base um palco tradicional, a Caixa Italiana, estruturada em retângulo sem proscênio adiantado, ou seja Elisabetano (aquele avanço muito utilizado como passarela no mundo da moda!). Mas veja, ainda que mudemos o espaço cênico, pensando arena ou qualquer outro (semi-arena, Isabelinos, etc.), ainda assim o sentido geográfico será prioritário, inclusive destacando que em algumas estruturas essa percepção pode vir a ter tamanha importância que o relacionaremos ao sentido de sucesso ou insucesso da encenação associado ao trabalho de ator. Mas voltemos a Caixa Italiana...
Em antigos registros de encenadores europeus vamos encontrar referência aos chamados palco alto, palco baixo. Costuma-se fazer uma confusão danada com essas nomenclaturas, ora invertendo os sentidos, ora enroscando os conceitos...
Palco alto corresponde ao frontal da área de apresentação o que os franceses chamavam de Avant’Scenne e nós brasileiros dizemos “boca de cena”, ante-cena ou proscênio. Tem caracter particular na encenação e muitas vezes serve para o solo de ator, pois indica força dramática, intimista e promove a pactuação da platéia com a personagem. O que ali é feito imprime grande representação. Ao encenador, este espaço tem a particularidade do cuidado simbólico, pois, só para dar exemplo, uma simples coçadinha de perna reforça a ação e se o ator/atriz ali mexer-se sem objetivação, pode e comprometerá a mensagem pretendida. O palco alto revela a necessidade de uma iluminação com especificidades próprias (normalmente canhões pares ou elipsoidais). Para o uso da maquiagem, já percebeu, pelo caracter intimista deve ser resguardado o detalhe e o colorismo.
Já no palco baixo o valor atribuído é diferenciado. Ele compõe a caixa cênica com reforço de contexto ou desenho de cenarização. Podem ajudar a ilustrar o enredo objetivado. As ações ali desenvolvidas são genéricas e o plano pretendido não é intimista. Quando o ator em sua marca estabelece-se no plano baixo, pode estar assinalando repouso dramático – mas não sempre! – pois no aguardo do desenrolar da ação ele ali, estará resguardado. Os olhares a este será dirigido no instante seguinte na composição mais à frente da ação, ou seja, no palco alto. Se eu tenho dois atores/atrizes numa mesma sequência de ação em tempo-ritmo composto, mas em palcos distintos (no mesmo palco físico, mas em posicionamentos diferentes – alto e baixo) ambos integrarão a unidade dramática, mas se desenvolverão individualmente quanto ao ritmo da ação, logo perceberei que os olhares dos espectadores estarão dirigidos inicialmente ao palco alto, numa vigília de ação/reação e logo depois ao palco baixo (expectação).
O palco baixo indica uma iluminação genérica sem especificidades próprias, servindo mais para aclimatação do ambiente pelo colorismo dos refletores (normalmente canhões ímpares, convexos, L30 ou luzes de efeitos – stroboscópicas, lasers, setlights, etc.)
Por isso deve-se dar real atenção ao posicionamento dos atores no palco, só para começo de conversa, pois apenas suas posições já nos darão pistas do desenrolar da ação dramática.
Outro aspecto diz respeito a divisão da caixa cênica em quadrantes. Isso é bem relativo a cada encenador, mas na prática normalmente para efeitos de iluminação básica a dividimos em seis partes (três para o palco baixo e três para o alto). Pergunta-se: Cada quadrante tem o mesmo valor cênico? NÃO!!!!!
Inclusive na iluminação o colorismo ganha contornos distintos.
Tomando o palco da direita para esquerda de quem olha de frente, teremos os quadrantes de palco baixo ao fundo de 1 a 3 e pela frente no palco alto, de 4 a 6. Se considerarmos a movimentação dos atores em cada quadrante poderemos identificar alguns simbolismos. Vejamos:
Ao girar para dentro da cena, estando no quadrante 1, para a direita coloca-se na ação, já para esquerda, exclui-se do contexto.
Outra: Estando o ator/atriz do quadrante 5, ou seja, frente a ação no palco alto ao centro e girando para a esquerda, indica aguardo no conflito (pausa de intenção) já para a direita, amplia-se o movimento e intensifica a ação.
Estes são só exemplos e existem mais, mas não devemos nos ater a isso como ao ler um esquema elétrico, quando a troca de um componente pode queimar o circuito. Esses indicativos são somente para demonstrar que a leitura geográfica do palco tem aspectos peculiares e deve ser observada, para obtenção de melhores efeitos dramáticos. Geografia de palco é muito interessante e deve ser estudada.
Mas nunca nos esqueçamos que qualidade dramática é emocional, é vivência e catarse. Destes não há esquema que salve uma encenação, pois sem o trabalho de ator, não será mera movimentação que legará qualidade a um espetáculo. O ator é base peculiar ao ato cênico e somente em algumas linguagens estéticas pode ser substituído com algum sucesso, como no teatro de Bob Wilson e outros similares ou mesmo reforçado em plena ação, como no deus ex-máquina de Eurípedes no teatro grego. De mais... Viva Stanislawsky! – Tem gente que vai me chamar de anacrônico!!!
Outra hora falaremos mais da geografia teatral. Estudemos, pois, filhinhos... E tenho dito!
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